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1.1 ABALOS NA INTENSIDADE DOS FLUXOS

O processo inescapável de interdependência socioambiental e tecnológica cria cenários onde cada vez é mais rara a condição da privacidade, colocando a democracia em risco (MOROZOV, 2013).

Transformando o planeta Terra em uma área conhecida e remasterizada, diminuta, o crunch [3] global advém dos grandes poderes concentrados em rápidas conexões na comunicação contemporânea (FRANCO, 2013), onde idealmente todos
podem ter acesso a todos os outros elementos do sistema.

Os abalos nos fluxos cognitivos do planeta recriam a espécie humana quanto aos seus códigos informacionais, éticos e morais tornando-os hipercapazes de transformar o mundo, física e ambientalmente.

O comum para todas as espécies: os elementos que procuram aprender soluções com as experiências próprias e alheias, principalmente entre semelhantes que vivem em proximidade.

No caso dos seres humanos a alta conectividade (e a contração do mundo) altera o comportamento da variável proximidade; via Internet é possível interação síncrona e assíncrona, além do espaço físico ocupado pelo planeta.

Os processos atuais, mesmo aqueles que apresentam clivagens de desigualdades através do controle e das hierarquias, fortalecem as perspectivas da multidão, em contraposição às figuras de povos e massas, na construção do que é
nomeado de altermodernidade (HARDT; NEGRI, 2004).

Estamos conectados em um estado permanente de alertas quanto ao nível ético de nossas ações. São duras as perspectivas das percepções com o atual "abandono total dos sonhos de pureza política e 'altos valores' que nos permitiriam permanecer fora" das cadeias de poder e contaminações da corrupção (HARDT;NEGRI, 2004).

Entre as opressões e oportunidades na negociação da hora de trabalho por capital, as atuais formas solidárias de convivência são orientadas para o universo infantil e relegadas ao mundo da irrealidade na ascensão à vida adulta ou ao mundo do trabalho (SOLNIT,2010).

A solidariedade também é comum em ações beligerantes de combate à alguma coisa, qualquer coisa, nas mais diversas instâncias das hierarquias militares ou paramilitares, vide o grau de conexão dos serviços legais e ilegais que se sobrepõe como no financiamento de milícias no Rio de Janeiro (CANO; DUARTE, 2008).

Em Hazards, Risks, and Disasters in Society (2014) os autores citam Rebecca Solnit e suas pesquisas que abordam a intensa solidariedade que emerge nos seres humanos durante períodos de desastres como enchentes, furacões ou terremotos (COLLINS et al., 2014).

A pesquisadora destaca uma pergunta importantíssima, afirmando que a pergunta verdadeira não é porque este breve paraíso de cuidado mútuo e altruísmo acontece nos desastres, mas sim porque ele é normalmente dominado por uma outra ordem mundial (SOLNIT,2010).

Em outras palavras a grande pergunta é: porque em tempos sem desastres a solidariedade humana é pequena?

A resposta possível vem de Theodor Adorno (1995) no artigo Educação Após Auschwitz. Logo no início do discurso onde aborda o que fazer após a barbárie dos campos de concentração nazistas, expõe que “a civilização, por seu turno, origina e fortalece progressivamente o que é anticivilizatório”. E continua: “Se a barbárie encontra-se no próprio princípio civilizatório, então pretender se opor a isso tem algo de desesperador”.

Os eventos, cada vez mais extremos acontecem em localidades por todo o planeta Terra, todos os dias. Por mais ingênua que possa parecer a afirmação a seguir, a calma é uma opção perante a complexidade e ausência de dados.

 

[3]Em uma tradução contextualizada para o português: contração, ou aproximação, dos mundos sociais.

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